Precisamos expor o puerpério

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No final de semana que passou recebi dois telefonemas-desabafo de amigas (recém tornadas mães) desesperadas com questionamentos, comparações e, é claro, a pergunta: para você foi assim difícil também?

Foi. Logo que a Dominique nasceu eu me dividia entre dar a atenção que ela exigia e contactar minhas amigas que recém tinham se tornado mães, às vezes ficava exageradamente focada no segundo. Mas eu precisava ouvir delas que tudo aquilo que eu sentia e passava era normal, precisava de amparo emocional para lidar com sentimentos, dores e tamanho cansaço que eu jamais imaginei que poderia ter.

Acho questionável e extremamente perigoso a maneira como a sociedade (e mídias sociais, óbvio) endeusa a maternidade como se, no momento em que damos à luz, uma mágica apaixonada acontece que todas as nossas próprias necessidades e vontades são simplesmente apagadas quando pegamos nosso bebê no colo pela primeira vez. Que a partir daí estaríamos realizadas e completas simplesmente por sermos mães, como se essa parte escura de questionamentos, frustrações e dores simplesmente não existisse.

Sim, eu me apaixonei pela Domi quando a vi. Mas os dias que seguiram o parto foram dias de luto. Luto pois aquela mulher que eu era antes nunca mais poderia ser a mesma. Aquela mulher precisou ser – fisicamente e psicologicamente – recriada, transformada, redescoberta e as suas vontades, sonhos e necessidades também. Claro, quando me preparava pra ser mãe imaginava isso… Mas nao imaginava o grau de dificuldade da transformação justamente por essa dor não ser devidamente exposta e falada como deveria ser.

O fato de esse lado difícil ser escondido pela sociedade ainda piora pois além do luto que estamos sentindo, vem a culpa. “Todo mundo diz que a maternidade é a melhor coisa do Mundo, por que é que eu não estou sentindo isso?”….Sentimos  não estar correspondendo ao que todos esperavam de nós como mães (ou do que nós mesmas esperávamos da nossa “versao mãe”).

Claro que bebês sao diferentes, alguns dormem mais e choram menos, alguns dormem pouco de choram muito, uns tem colicas outros nao… mas todos precisam de 100% da gente. De amor, paciência e atenção suficiente para exigir que esqueçamos nossas vontades e necessidades próprias. A Domi exige bastante de mim e somando ao fato de que estou longe de mãe, sogra ou de qualquer familia que poderia ajudar (e tenho um marido que alem de ser mestrando, tem dois trabalhos), a fase foi bem pesada. Ta sendo.

Precisamos urgentemente mudar a forma como essa fase árdua da maternidade é exposta, precisamos falar mais sobre o puerpério. Eu escrevi um texto sobre a fase e recebi muito apoio, muitas mensagens com empatia e “Obrigada por me fazer sentir normal”. Eu também agradeci quando as recebi por saber que nao há nada de incomum ou errado em tudo que eu senti.

A solução está nas nossas mãos, sociedade. Para as puerperas, que demos o devido apoio, o amor, a empatia que elas precisam. E quando conversar com futuras mamães, que tragamos isso em pauta para que saibam que o processo é normal e passa, assim quem sabe podemos aliviá-las da possível culpa que sentiriam. “O pós parto me esta doendo mais que o parto”, uma delas me falou no telefone e nao há melhor comparação. Pois então que gastemos menos tempo preparando nossas mulheres futuras mães para o parto e mais para o puerpério.

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14 thoughts on “Precisamos expor o puerpério

  1. Acho que o pior, o que causa maior desespero é a expectativa que criamos. Que com a chegada do bebê vai ser tudo lindo, maravilhoso…e é! Mas todo bônus vem com ônus e não nos preparamos para ele. É cansativo, desafiador e nem sempre temos alguém pra nos ajudar seja no braçal ou no emocional. E quando vemos que nossa expectativa estava totalmente fora da realidade bate mais medo ainda e temos duas escolhas: o desesperar-se ainda mais ou reavaliar a maneira que enxergamos o mundo a nossa volta. Essa foi minha experiência. E a cada dia aprendo algo novo que me muda, me transforma pouco a pouco em alguém melhor Emoticon smile

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  2. Olá
    Adorei seu post. Realmente precisamos expor o puerpério, assim como todas as outras nuances maternas que viemos perdendo ao longo dos anos. Hoje, minhas amigas mais intruidas, muitas até doulas, condenam os chamados “palpites” sobre parto, sobre amamentação, sobre cama compartilhada, sobre qualquer coisa que divirja da ideia do que elas acreditam ser o certo. Tudo bem, concordo que muito palpites são esdrúxulos, mas se afastamos, inclusive com posts ofensivos no Face, todo tipo de “palpites”, como conseguiremos conversar com as pessoas mais sensatas que vivenciaram essas experiências? Outro dia uma amiga muito querida disse achar a opção pela forma de parto algo que diz respeito estritamente ao casal, que ninguém deveria dar palpite, assim como na relação sexual ninguém diz o que você deve fazer, no parto também não deveriam. Mas eu discordo e acho exatamente o contrário, devemos conversar mais, trocar experiências, talvez por falta de diálogo que tenhamos uma das maiores taxas de cesáreas do mundo. Estarmos dispostos a ouvir o outro, principalmente quando discordamos do que dizem, realmente pode ser um exercício de paciência, mas seremos recompensadas por “palpites” surpreendentemente maravilhosos que ajudarão a formar nossos conceitos.

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  3. Além de que deecobri minha gestação vom 3 meses ainda tive minha bebê prematura então foram apenas 3 meses pra pensar q eu seria mãe aos 32 anos sem planejar.
    Depois de 2meses e meio de uti neonatal estou em casa fazem 23dias de profundo sofrimento, tal qual até me envergonho de compartilhar para q não pensem q estou rejeitando minha filha q amo tanto.
    Não é nada nada nada favil mesmo. Um misto de sensações e sentimentos mto ruins.
    Estou contando os dias para parar de sentir tudo isso ja que busco informações de que passa…
    Deveria ter remédio pra isso pq é a pior sensação q ja tive.
    Sorte a todas, força e fé.

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  4. Nossa! Super bacana!
    Nos escondemos, ao nos tornarmos mãe, atrás do mito que a vida, a sociedade criou de que ser mãe é alcançar o estado perfeito do ser, de que é êxtase puro.
    Entendo que são duas metades, duas faces : a missão da maternidade com todas as duas responsabilidades e amor para sempre e a outra metade de que necessariamente assumimos de reformularmos nossa condição, individual, de Mulher que vai sendo “engolida” pela nova condição: ser mãe.
    Não é fácil!
    É o “antes” e o “depois” mesmo!
    Adorei ler sobre o assunto e confesso que pensamos e nos sentimos assim, porém nunca havia lido.
    Parabéns pela abordagem do tema.
    Obrigada!

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  5. Bem legal teu texto, a maternidade e o puerpério não são fáceis, mas não deixam de ser lindos. Vai do olhar de cada mulher. Ser mãe é doação, e se a mulher ainda não aprendeu a se doar de corpo e alma, aprenderá de diferentes formas na maternidade. Se preparar para o parto é necessário para o bebê e para a mãe sim, uma mulher forte o suficiente pra encarar um parto natural saudável, torna-se forte para encarar o puerpério e tudo o mais que virá. Sou mãe de três meninos, um de sete, de quatro e o mais novo de 6 meses. Maternar é algo que se adquire não “vêm de fábrica”, requer entrega e muito esforço embasados em muito muito amor.

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  6. Minha filha era dorminhoca, efeito da anestesia, possivelmente, e estava difícil amamentar na maternidade. Ouvi do meu esposo no momento que tentei amamentar pela primeira vez em casa: “Não entendo como não consegue amamentar, parece tão simples”. A lágrima desceu e eu leoa ofendida falei: “Vc acha que com a quantidade de leite que tenho não quero amamentar? Com o sofrimento do risco de empedrar o leite e eu não estou me esforçando com algo tão simples ao seus olhos?” Chorando olhei para ele e dosse que na próxima tentativa de mamada eu não queria ele no quarto… Ele chorou junto… choramos juntos… É eu amamentei até um ano e oito meses. Sempre conversa de maneira real com as minhas amigas. Tornarmos humana a nossa condição as aproxima e encoraja! Amei o texto!

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  7. Bom texto e boa temática. Imagine meu caso, que além de tudo isso, me deparei com a dor do diagnóstico de uma doença crônica e incurável no meu filho. Posso garantir que quando isso acontece, a situação pode ser ainda mais difícil. Além do luto por aquele bebê que era saudável na sua imaginação e que não existe na realidade, da rotina que o bebê impõe, ainda ter que aceitar dentro de você que sua vida e a dele serão bem complicadas dali em diante. Some-se à rotina de qualquer bebê os cuidados especiais da doença que ele tem. E aí você pensa: tudo que eu queria era só me anular e ter o trabalhão que as outras mães têm. Já estaria de bom tamanho. Então, tudo depende do referencial. Mas como tudo na vida, a gente supera, luta, se acostuma, se adapta e continua vivendo. E volta a ser feliz. Mais feliz do que antes. Por isso, eu acho que dificuldades fazem parte da vida. Fases mais difíceis são normais. Desde pequena eu ouvia de minha mãe e de outras mulheres que a chegada de um filho dá um baita trabalho, que muda a vida, que a gente passa a não dormir, que o peito racha e o bebê não pega, que não dá tempo de comer e de fazer xixi. Então, eu não entendo quem se assusta com o puerpério. Sempre foi assim. Eu não creio que uma mulher adulta se surpreenda tanto com o lado obscuro da maternidade. Isso é fato amplamente conhecido, e nisso discordo de seu ponto de vista de que ainda precisamos falar muito no assunto. Não estou desmerecendo o sofrimento e a maneira como muitas mulheres se sentem, apenas estou dizendo que, talvez, as gerações atuais, embora tenham acesso à informação, não tenham sido tão bem preparadas emocionalmente para fases em que temos, sim, que nos anular e nos dedicar ao outro em período integral.

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    1. Concordo com você. Acho que hoje em dia as pessoas são surprendidas com a maternidade, pois estamos numa epoca aonde as pessoas, com todas as facilidades da vida moderna, não estejam preparadas a ser responsaveis por outro ser. O que era o motivo de ser mulher antigamente, agora virou mais uma opção na vida e não um caminho natural.

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  8. Ao meu ver, muitos pais da geração de hoje não foram preparados para abdicarem de suas vidas em prol de outra. Hoje a sociedade estimula o egocêntrismo, o EU. Hoje o que vale é a ostentação, as viagens feitas, os restaurantes e festas “tops” frequentadas, e por aí vai. Quando precisa-se abdicar dessa vida em sociedade para criar um filho, alguns demoram a resgatar quais são os verdadeiros valores da vida, e ficam presos ao que abdicaram e perderam ao invés de apegarem-se ao que ganharam. Tudo tem seus prós e contras, mas o que vai ditar a forma com que enxergamos essas transformações, são os valores que carregamos conosco. E até na maternidade percebe-se o quanto nossa sociedade está doente e perdendo seus verdadeiros valores. De qualquer forma desejo à todas que sejam muito felizes ao lado de seus filhos!

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  9. Vivemos em uma época em que dor de parto é superestimada, em que qualquer mulher que não se encaixe nos padrões estabelecidos por essa sociedade hipócrita é rejeitada e julgada. E que além de todo medo, dor e dúvidas, essas mulheres ainda tem que colocar um sorriso enorme no rosto e fazer-se acreditar que está no paraíso. Por que não podemos falar sobre o assunto? Sobre o que nos incomoda, sem que recaia em nossos ombros o julgamento que não amamos nossos filhos o suficiente? Devemos abrir nossos corações, sem medo dos apontamentos gratuitos de hipócritas e falar verdadeiramente como nos sentimos e ponto.

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  10. Minha filha não foi planejada. Além do medo de não saber o que estava por vir, tive que enfrentar sozinha a rejeição da família. É muito estranho isso. Se vc é mãe enquanto está casada, fazem festa, mas se vc ainda não se casou, a gravidez é vista quase como uma doença. Eu amo minha filha mais que tudo no mundo, mas não posso dizer que minha vida virou uma maravilha depois que ela nasceu, muito pelo contrário. Eu não encontrei essa “felicidade” na maternidade, não me sinto completa por ter uma filha, e estaria mentindo se dissesse que foi e está sendo uma boa experiência. Minha filha já vai fazer 10 anos e se eu pudesse voltar atrás eu não a teria, mesmo a amando mais que tudo, mesmo sendo capaz de dar minha vida por ela.

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