Amamentação prolongada tem algo a ver com cáries? Definitivamente não.

Há alguns dias compartilhei uma foto amamentando minha filha de 2 anos e meio falando sobre algumas situações chatas que tenho passado incluindo a de ouvir da sua dentista que ela deveria ser desmamada durante a noite por conta do aparecimento de cáries. Algumas leitoras questionaram e outras até comentaram que da mesma forma já ouviram o mesmo.

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Muita gente ainda culpa amamentação prolongada (especialmente noturna) pelo aparecimento de cáries. Segundo a Associação Australiana de Amamentação, a crença de que amamentação noturna causa cárie é baseada em apenas 3 artigos de Bram e Maloney, Gardner, Norwood e Eisenson e Kotlow que foram escritos no início dos anos 80. Os autores apresentaram relatos de casos de apenas 9 bebês, dois dos quais também eram alimentados com fórmulas. As conclusões destes artigos se basearam nesse pequeno número de casos e na pouca compreensão dos próprios cirurgiões-dentistas sobre amamentação.

Outras pesquisas (baseadas em evidências) contrariam totalmente a noção de que a amamentação qualquer coisa a ver com a cárie. Estas evidências incluem estudos populacionais que não demonstraram nenhuma relação entre amamentação e cárie em grandes grupos de crianças, por exemplo:

Na verdade, algumas pesquisas até sugerem que a amamentação pode proteger contra a cárie. Os anticorpos do leite materno ajudam a impedir o crescimento bacteriano (incluindo Streptococcus mutans, que é a bactéria que causa cárie). A lactoferrina, uma proteína no leite materno, na realidade mata a Streptococcus mutans. Rugg-Gunn e alguns colegas relataram que essa bactéria S. mutans pode não conseguir quebrar a lactose, o açúcar encontrado no leite materno, como a sacarose, que é encontrado em algumas fórmulas.

Além disso, analisando a fisiologia de uma criança mamando na imagem a seguir, podemos lembrar que uma boa pega é aquela que a criança tem um bom “pedaço” do seio dentro da boca, não apenas o mamilo. E isso faz com que quase nada do leite realmente entre em contato com os dentes, o leite é mandado direto na garganta da criança para estimulá-la a engolir.

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É claro que uma criança amamentada pode desenvolver cáries. Mas não há evidência suficiente provando que essas cáries foram provocadas pela amamentação.

 

Referências e outros links (todos em inglês):

http://www.llli.org/NB/NBSepOct02p164.html
http://kellymom.com/ages/older-infant/tooth-decay/
https://www.breastfeeding.asn.au/bfinfo/breastfeeding-and-tooth-decay
Brams M, Maloney J 1983, ‘Nursing bottle caries’ in breastfed children. J Peds 103(3): 415-416.
GardnerDE, Norwood JR, Eisenson JE 1977, At-will breast feeding and dental caries: four case reports. ASDC Journal of Dentistry for Children 44 (3):186–191.
Kotlow LA 1977, Breast feeding: A cause of dental caries in children. ASDC Journal of Dentistry for Children 44 (3): 192–193.
Arnold R, Cole M, McGhee J 1997, A bactericidal effect for human lactoferrin. Science 197:263–65.
Mandel ID 1996, Caries prevention: current strategies, new directions. JADA 127:1477–88.
Rugg-Gunn A, Roberts GJ, Wright WG 1985, Effect of human milk on plaque pH in situ and enamel dissolution in vitro compared with bovine milk, lactose, and sucrose. Caries Res 19:327–34.
Erickson PR, McClintock KL, Green N, et al 1998, Estimation of the caries-related risk associated with infant formulas. Pediatr Dent 20:395–403.
RibeiroNM, Ribeiro MA 2004, Breastfeeding and early childhood caries: a critical review. Jornal de Pediatria 80(5 Suppl):S199–S210.

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