OBRIGADA, MINHA FILHA!

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Menina do meu Mundo, você não tem ideia como transformasse a minha vida. Escrevo na fé de que esse texto sobreviverá até que tu possas ler e tirei coragem de algum lugar que eu desconhecia para expor isso em público, na esperança de que chegue a outras mulheres que possivelmente estejam passando pelo mesmo.
Do fundo do meu coração, eu espero que quando estejas grande o suficiente para ler esse relato e entender a profundidade dele, o Mundo seja um lugar mais justo com as mulheres e com as minorias. Hoje ele não é, e não foi durante meu crescimento.
Gostaria de te começar contando sobre meus relacionamentos amorosos. Embora eu tinha um exemplo maravilhoso de mulher independente e mãe solo dentro de casa, eu aprendi desde cedo que deveria arrumar um homem para casar, e isso se tornou uma fixação para mim… Foi namoro atrás de namoro com homens que nada tinham a ver comigo…. Eu nunca consegui ser eu mesma nos meus relacionamentos, sempre me esforçando para agradar o parceiro, você acredita? Sempre tentando vestir a camisa de exatamente o que homens amam: a feminilidade.
Eu era capaz de me relacionar…. mas nunca amar, me entregar, ser eu mesma e achar um parceiro que realmente me amasse como eu era. Parecia que vivia me auto-sabotando. Porque será? Me perguntava muito isso superficialmente, mas lá dentro eu sabia.
A resposta era simples na teoria, mas muito, muito, muito difícil de aceitar: eu simplesmente não conseguia amar homens romanticamente. Eu sabia disso, mas em algum momento da minha trajetória eu coloquei essa verdade numa gaveta bem pequenininha e escondi lá no fundo de mim e nunca mais abri. E sempre que eu pensava nisso e a gaveta tentasse vir a tona… eu voltava a fechá-la e mandar prum lugar ainda mais longe.. e pensava exatamente assim: eu prefiro morrer do que abrir essa gaveta, eu prefiro morrer. E assim fui me relacionando com homens, me machucando e os machucando também.
Bem, sei que isso não é surpresa para você, afinal… você me conhece desde que nasceu. Mas eu quero te contar como foi dolorido viver numa sociedade machista e homofóbica, que eu cheguei a a abrir mão da minha essência, da minha felicidade.
Veja bem, isso não significa que não amei teu pai, muito pelo contrário. Ele é um homem fantástico, eu o amei e hoje o adoro muito. Mas um sentimento diferente… Hoje sinto um amor de amigo, de parceiro.
E quando você nasceu, filha…. eu senti o peso do exemplo. Como poderia eu te ensinar a ser uma mulher forte, decidida e autêntica se eu não estava sendo verdadeira comigo? Fui até onde eu consegui, eu realmente me esforcei… mas estava machucando outras pessoas além de mim com o fato de ter fechado o segredo dentro da minha gavetinha. Então, tudo isso somado a outras razões, veio o inevitável: me separei do teu pai.
Então um dia eu sentei sozinha, resolvi abrir a minha gavetinha e encarar a verdade que dentro dela estava, e eu busquei coragem na tua existência… eu falei: eu preciso encarar isso. Depois que você nasceu eu perdi medo de tudo e de todos. Perdi medo de ser rejeitada, a única pessoa que me importa é você. Eu posso perder todo mundo, posso ser rejeitada por todos… E a certeza de que você vai continuar do meu lado me empurrou para frente na jornada de me libertar.
Hoje eu olho para trás e penso poxa, porque eu perdi tanto tempo me machucando… mas hoje eu entendo que era o meu caminho para chegar até você: e talvez eu precisava de você pra conseguir me aceitar, me libertar. Por isso, OBRIGADA!
Filha, hoje no dia que eu te escrevo o Mundo é muito difícil para as mulheres e especialmente para aquelas que amam mulheres. Rejeitar homens romântica e sexualmente é quase visto como um ato audacioso numa sociedade patriarcal. Foi muito difícil me aceitar e me descobrir… pois desde cedo somos ensinadas a qualquer custo enquadrar nos padrões heteronormativos…. e isso dói demais, custa caro. Não somos numericamente bem representadas… Nem na sociedade, nem na cultura, nem na política, em lugar algum. Somos frequentemente silenciadas.
Mas eu resisto, meu amor. Por você e por todas que virão. Sei que muita gente vai embora depois de eu tornar isso público.. mas também sei que quem importa, fica. Hoje, sabendo que você está ao meu lado a qualquer custo, eu levanto minha voz para dizer que sou uma mulher homossexual muito orgulhosa e feliz.
Obrigada por isso. Eu te amo.
—————
Faz quase dois anos que me separei e que tenho vivido a minha vida colorida, que antes era preto e branco. Eu escrevi esse texto perto daquela época e até então nunca tinha sentido vontade de publicá-lo. Mas a situação política Australiana do momento e a resistência desse governo em legislar para o casamento entre pessoas do mesmo sexo me obrigou a representar minha comunidade.
Você mora na Austrália? Conhece alguém que mora na Austrália?
Alguma pessoa Australiana? Cidadã Australiana?
Temos até dia 24 de agosto para verificar nossa inscrição no Australian Electoral Commission e ter certeza de que nosso endereço está atualizado pois ao que tudo indica, votaremos pelo correio num futuro bem próximo.
Dá para verificar nesse site: http://www.aec.gov.au. Vote e vote SIM!
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2 thoughts on “OBRIGADA, MINHA FILHA!

  1. Relato lindo por que é verdadeiro,e tudo que se abre da verdade é lindo e tem a força transformadora da vida!Siga em frente Julia,siga por você ,siga pela Domi,você é linda,maravilhosa como um ser humano capaz de assumir suas verdades,nada vai dar errado,tudo já esta certo!

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  2. Caramba, eu acabei de entrar nesse site (por recomendação de uma pessoa que sabe da minha tendência vegana) e já chorei, rsrs

    Suas palavras são lindas!!! Sua filha deve ter muito orgulho de vc!

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